domingo, 15 de janeiro de 2012

O assalto à saúde

"So for those who wish to destroy the European model of the welfare state, the structural weakness of social welfare in the United States offer an attractive model. First, create an identifiable group of underserving poor. Second, create a system in which the rich see little benefit flowing back to them from their taxes. Third, diminish the role of trade unions, portraying them as pursuing the narrow interests of their members rather than, as is actually the case, recognising that high rates of trade union membership have historically benefited the general population"

Martin McKee e David Stuckler, no British Medical Journal.

Portugal e a União (2)

Não há acção política possível que não tenha o seu contrário, a inacção, sempre representada como acto político consumado; não há, portanto, vazio ou omissão de cariz político que se possa tomar como acidental ou negligente. Saber se a inacção incorpora uma teoria política é assunto diverso, mas dificilmente um observador atento e crítico se pode permitir esquecer que uma ausência é, enfim, um movimento mais no sentido do laissez-faire.

A simetria entre uma acção e sua negação é, em Política, um simulacro da oposição entre A e não-A, que na sua impura forma lógica assume afinal a oposição entre A e B. Por outras palavras, por via do universalizante, a inacção política não é a negação de uma acção, mas uma outra, nova e incompatível.

Daqui ser-nos-ia lícito partir para a releitura de uma volumosa quantidade de argumentação política usada nos mais variados campos, mas um exemplo basta para mostrar os efeitos possíveis, sobre a dialética política, desta reconfiguração: o debate quanto à tomada de posição do Estado Português no âmbito da transformação europeia em curso.

Do lado da acção, alguns defendem que Portugal deve, na medida das suas possibilidades, procurar aliados no seio da União Europeia que com ele partilhem certas características - no plano económico perspectivas de medíocre crescimento económico, problemas de solvência; no político, a sujeição a interferência externa; no geográfico, a localização periférica - e estejam de acordo quanto a um número razoável de objectivos, incluindo certamente aqueles relacionados com as características que os tornam tão semelhantes, mas também o desejo de impedir uma Europa definida pelo eixo franco-alemão. Do lado "oposto", afirmam outros que Portugal não deve estabelecer sequer esse tipo de afinidades, pois isso compromete o caminho sacrificial que Portugal aceitou fazer, põe em causa o alcançar das metas impostas, e não tem reais possibilidades práticas de sucesso.

Excluindo, para simplificação, a vital discussão quanto ao fundamento de todos os argumentos envolvidos, sobra-nos o esqueleto da hipotética acção política: agir ou não agir. Ora, retomando o motivo inicial, a assunção de uma política omissa no que respeita à questão da aliança com outros estados-membro volve-se acção deliberada de nada fazer, movimento positivo de continuar um percurso individual no meio de uma crise sistémica. Neste caso como em tantos outros, a subtil recolocação dos termos em que se traduz a liberdade de acção traz consigo outros modos de julgar, quanto à virtude, qualquer das opções tomadas. É que se agir é ingénuo e inútil, e não agir é sensato e pragmático, agir solitariamente é gesto contínuo de autoflagelação.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Mérito e Mercado

A retórica liberal, concretamente na sua ligação com a ascensão meritocrática, está como nunca disseminada por toda a parte onde se podia infiltrar; contudo, não há paradigma meritocrático que não seja o espelho das condições estruturais, mormente de dimensão, do sistema que habita. No caso português, a retórica do "elevador social", charneira do pensamento social-democrata, depende quase directamente da implantação desse paradigma, da sua extensão e completude. E paradoxalmente, podendo-se afirmar que não há verdadeiramente cultura meritocrática em Portugal, que se possa dizer transversal e universal, ela ainda assim subsiste melhor nas posições intermédias da nossa economia, onde os mecanismos de mercado de facto funcionam e a selecção parece lhes obedecer, enquanto que, nas elites que tanto a apregoam, a rotação de nomes e cargos acontece em pequenos círculos de poder, na ausência plena de qualquer mecânica de procura e oferta. A retórica meritocrática que certas elites liberais ensinam só se aplica nos subúrbios do seu meio, e não no seu centro.

A meritocracia não tem condições de existência universal no pequeno mundo Português: a mão invisível de Smith, em círculos restritos de poucas pessoas, torna-se na extremidade de um corpo visível, de uma pessoa por todos os membros conhecida.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Sobre a falácia

"In particular, since euro-area countries can’t print money even in an emergency, they’re subject to funding disruptions in a way that nations that kept their own currencies aren’t — and the result is what you see right now. America, which borrows in dollars, doesn’t have that problem. The other thing you need to know is that in the face of the current crisis, austerity has been a failure everywhere it has been tried: no country with significant debts has managed to slash its way back into the good graces of the financial markets. For example, Ireland is the good boy of Europe, having responded to its debt problems with savage austerity that has driven its unemployment rate to 14 percent. Yet the interest rate on Irish bonds is still above 8 percent — worse than Italy." 

Legend of the Fail, por Paul Krugman, no Herald Tribune

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Ortodoxia

Uma notícia que pouco eco cá no protectorado mereceu: 70 alunos da disciplina de Economics 10, leccionada por Gregory Mankiw (um dos autores mais importantes no plano curricular da NOVA), abandonaram a aula poucos minutos após o seu início, numa acção planeada contra o que os aderentes consideram o enviesamento ideológico de uma disciplina introdutória fundamental. Atalhando, estes alegam que, de um curso para muitos obrigatório e que se pretende que constitua o primeiro passo tendo em vista o aprofundamento dos conhecimentos dentro da Ciência Económica, Mankiw transforma-o numa disciplina que transmite teoria económica fortemente marcada por preceitos ideológicos (concretamente, e com as características americanas, o conservadorismo) ocultos sob a capa da não-ideologia, assente em premissas duvidosas ou mesmo falsas e, acima de tudo, responsável pelo crescimento da desigualdade de rendimentos registada nos últimos 40 anos.

Não é especialmente entusiasmante a ideia de um esboço de levantamento estudantil no coração das maiores universidades americanas, de cujos departamentos têm saído boa parte dos líderes de uma certa ortodoxia doutrinária que definitivamente retirou à Economia o que esta inevitavelmente tem de Política. E não o é devido à sua própria constituição: um movimento minoritário de estudantes ainda nos primórdios da sua formação teórica resultaria há umas decadas atrás, quando a regurgitação que o "bom-senso" bovino da maioria impõe era muito lenta, quer em velocidade quer em alcance; e isto porque a descomunal máquina dos meios de comunicação, hoje no essencial grosseiros sistemas de propaganda, simplesmente não existia. Qualquer movimento contemporâneo, mesmo que solidamente fundado em teoria nova e correspondendo ao espírito gregário de um grupo, embate inevitavelmente contra a parede do discurso homogeneizado e próximo da mecânica simples do senso-comum, morrendo quase à nascença, ou sobrevivendo em pequenos grupúsculos. Hoje, manobras de agitação de alunos frustrados e ainda carentes de uma ideologia vária não só falham em enfrentar verdadeiramente a muralha do "bom-senso" como, por via de uma certa estultícia, arriscam tornar-se aquela brisa que, chocando contra uma formação de ar maior, apenas a alimenta e volve mais violenta.

No passado, elites dominantes - e a visão do mundo que rebocam - podiam ser substituídas por movimentos ascensórios de jovens irreverentes, apoiados em massas mais ou menos ignorantes em busca de ganhos colectivos. Hoje, a insolência da juventude integrada nas mesmas estruturas cujas fundações critica dá apenas um ar de riqueza e pluralidade a certos meios académicos fortemente (e dissimuladamente) ortodoxos. Apenas outros meios académicos, livres ainda dessa ocupação doutrinária, podem por a nu a ortodoxia científica de uma maioria.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Portugal e a União (1)




O acordo alcançado na última cimeira europeia é o primeiro passo de um processo político não-democrático de sujeição. Os modernos burocratas europeus, os idiotas úteis de alguém, continuam a conceber alterações ao funcionamento da União, à sua orgânica, no fundo, à sua essência e ao que dela emana. Fazem-no com medo permanente da consulta popular.

Todas as estruturas europeias retiraram soberania aos países e raramente o processo de integração europeia, no pós-guerra, resultou da vontade popular directamente expressa, sendo quase todos os passos dados suportados na ratificação indirecta que as eleições nacionais proporcionaram. Hoje, a integração prudente, respeitando e seguindo o que as nações europeias tidas em conjunto poderiam realmente suportar, sob o espectro da desagregação, é pouco mais que um tolo anseio. Como a integração monetária, as políticas de desincentivo à produção na periferia europeia e o ilusório efeito de riqueza proporcionado pelos fundos estruturais resultaram, 20 anos após Maastricht, no aprofundamento das diferenças na União.

Enquanto havia convergência, a Europa agregava-se. Quando os primeiros casos de divergência entre membros da União se começaram a manifestar, cabia a esses países mudar. Agora que a divergência é partilhada por dois clubes de países, não há agregação que subsista. A partir daqui, os países em declínio real seguirão tudo o que a outra parte, a excedentária, lhes impuser. É racional se se admitir que o declínio é temporário. Mas algum pragmatismo e (boa) teoria económica, revelando que o retrocesso passageiro poderá durar décadas, torna irracional a aceitação destas novas políticas.

Se de facto existe ainda uma identidade a que possamos chamar nossa.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Segurar a saúde

"Some of the main reasons for the high primary health-care costs are the repetition of tests and prescriptions due to poor information transfer between providers and the vast induced demand for health-care services. The latter is perhaps the most important factor and can be explained by the large number of specialists—the highest among countries of the Organisation for Economic Cooperation and Development—and the ineffectiveness of the existing control mechanisms of health insurance funds who incur the costs."

No Lancet, sobre o aumento da despesa grega com a saúde, apesar de piores resultados globais em termos de saúde da população. Ou porque não ter um seguro, apesar da publicidade, apesar da Fátima Lopes, apesar da propaganda, apesar do marketing. Quando nos debruçarmos sobre os números, perceberemos que na medicina das seguradoras não há lugar para a saúde, só para o negócio.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A saúde grega


"Overall, the picture of health in Greece is concerning. It reminds us that, in an effort to finance debts, ordinary people are paying the ultimate price: losing access to care and preventive services, facing higher risks of HIV and sexually transmitted diseases, and in the worst cases losing their lives. Greater attention to health and health-care access is needed to ensure that the Greek crisis does not undermine the ultimate source of the country’s wealth—its people."

Para ler no Lancet, uma das duas revistas médicas de referência a nível mundial. Não é que estejamos a perder os cuidados de saúde. É que nos estão a roubá-los.

Importa-se de repetir? #2

"A Europa não é dirigida pela senhora Merkel e pelo senhor Sakozy. É uma impressão. Nós somos 17. Não somos 2". 

Jean-Claude Junker

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Suicídio matemático / Decepamento político


O artigo de Ambrose Evans-Pritchard, que por vezes revela uma certa germanofobia, publicado no Telegraph, apresenta a maior parte dos elementos que fazem do plano económico-político das actuais elites europeias um acto de auto-flagelação: ignora o problema económico fundamental (desequilíbrios nas balanças comerciais e de pagamentos entre países cuja moeda própria, se a possuíssem, deveria estar sobrevalorizada face ao euro, e países que, analogamente, deveriam ver a sua hipotética moeda desvalorizada); impõe uma receita que por desincentivar a produção e o crescimento económico acaba por tornar a sustentabilidade do pagamento da dívida uma miragem; recusa dotar a zona Euro dos mecanismos necessários para o funcionamento de uma zona monetária óptima (essencialmente harmonização fiscal e orçamento comum); supõe implicitamente uma maciça transferência de riqueza do Sul para o Norte, e da Periferia para o Centro; gera no imediato mais desemprego e diminuição de rendimentos no Sul e, no curto prazo, no Norte, que depende do mercado interno europeu; alimenta velhos rancores, separando nações extraordinariamente antigas que haviam aceite a integração numa Europa unida e impulsionada pelo consenso do pós-guerra.

Como não é crível que o fim da prosperidade e convergência internas acabe por, numa perfeita inversão, unir a Europa, todo o processo deverá levar à reformulação da mesma. Então (e surgem já sinais disto), começará a surgir dos países do Centro um novo entendimento, contrário ao actual, reconhecendo a falência da austeridade como plano económico. Nesse momento, ninguém duvidará de que somos governados por um Primeiro-Ministro e um Ministro das Finanças que são, no seus máximos, um ignorante comissário político e um exímio funcionário de responsabilidades intermédias.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

A ignorância não se medica, educa-se

A educação foi do melhor que a República trouxe. Não para todos. Agora em português, e mais devagar. Pondo de fora os erros gramaticais - a que o I nos tem vindo a habituar - há muito que merece ser desmascarado no editorial - poderemos chamar-lhe assim? - desta edição.

"Basta ver os números para se perceber que o monstro também chegou à saúde, com todos os vícios de quem gasta o que não tem e sempre que precisa de mais dinheiro vai aos bolsos seja de quem for para suportar a despesa". Primeiro ponto, para que saibamos já ao que vamos: a saúde nunca teve, não tem e nunca terá, enquanto for bem feita, o propósito de gerar dinheiro. Tem o único propósito de oferecer o melhor tratamento médico possível à população. É bem verdade que isto é diferente de não gastar dinheiro e que os recursos são limitados. Esta é outra discussão - a da gestão do dinheiro da saúde - que é técnica e que a pessoa em causa não tem, notoriamente, capacidade de ter. Envolve a noção do que é uma medicina clinica por oposição a uma medicina em que se pedem exames antes de colher uma anamnese - procure no dicionário António Ferreira, vai ver que é um livro fantástico. Envolve ainda o estudo aprofundado, critico e comparativo da saúde pública versus a saúde privada. É um debate técnico, comparativo e uma escolha politica. Nunca poderá ser um debate opinativo.

"Bastou o ministro dizer que ia reduzir para metade os incentivos aos médicos para a esquerda rasgar as vestes na praça pública, dois responsáveis baterem com a porta e muita gente lamentar por antecipação a morte de pessoas às mãos de um homem gelado que só pensa em números e em cortes no sagrado SNS. Afinal, almas sofridas da esquerda, Paulo Macedo apenas anunciou o corte de 50% dos incentivos pagos aos médicos. Não decretou a redução dos transplantes". Talvez fosse salutar espreitar, uma vez, uma escala de médicos para transplante - como para muitas outras especialidade. Isso envolvia perceber que há um número reduzido de médicos disponíveis 24 horas sobre 24 horas para um cirurgia. Não só estamos a falar de um dos trabalhos mais especializados que o país fornece, como estamos a falar de uma disponibilidade a tempo inteiro. Paulo Macedo não decretou o fim dos transplantes, é certo, mas quando o decretar não escreverá um edital em Diário da Républica dizendo "Eu, Paulo Macedo, decreto o fim dos transplantes". Fará o que, lentamente, tem vindo a ser feito. Desmantelar a rede médica, cortando salários e diminuindo pessoal até que se torne incomportável sustentar um dos melhores serviços fornecidos em Portugal. Outro exemplo: com o fim do pagamento de horas extra-ordinárias, a grande maioria dos médicos hospitalares acaba por fazer prolongamentos e urgências internas - isto é, assegurar o serviço de enfermaria em horário pós-laboral - em regime completamente pro-bono. Não estamos a falar de empresários milionários a jogar golfe em resorts enquanto os trabalhadores criam lucro, é importante que se perceba.

"E se está bem cotado a nível mundial, o que é uma verdade, também deve essa qualidade ao sector privado. Sim, mais de 42% dos serviços prestados pelo SNS são, afinal, da responsabilidade do sector privado". Ah, os números, os maravilhosos números que podemos usar em proveito de um argumento. Mesmo quando não fazemos ideia daquilo que estamos a falar. A grande parte dos serviços prestados pelo sector privado são actos médicos de reduzida gravidade. Ou seja, as pessoas recorrem a uma consulta, pela qual teriam de esperar mais tempo no SNS sem prejuízo calculado na sua morbilidade. Pior que isto, quando recorrem com um problema de facto grave, muitas vezes são reenviados para o hospital público mais próximo por não terem cobertura suficiente no seu seguro ou meios de pagar os custos exorbitantes. O privado arrecada o dinheiro e despeja a factura no erário público - ah, o tão amado sector privado de António Ribeiro Ferreira. Mas há pior e mais importante. Porque por trás dos números - que apenas referem a quantidade de atendimentos, esquecemos o mais importante - os números, sempre os números - que é a qualidade do acto médico. O sector privado consegue - única e exclusivamente por pressões economicista de quem gere o sector - inverter a lógica da saúde do doente para o lucro. Isto faz com que por vezes se peçam exames desnecessários, porque são caros e o utente paga, e outras vezes não se peçam exames cruciais, porque são caros e o seguro não cobre.

Escreve pior quem não pensa o que escreve.

Ainda, uma vez mais, e enquanto necessário, a saúde.

Enquanto nos afogamos entre as opiniões dos economistas - e eles são cada vez mais, estão por todo o lado, andam aos pares e dizem, na televisão, quase todos o mesmo - e o medo de um futuro pior, há um contínuo ataque ao funcionamento público sob a desculpa da inevitabilidade. Quando toda a poeira assentar, veremos a maioria da riqueza pública a funcionar em nome do enriquecimento de alguns. Este é um dos maiores ataques concertados de que há memória. Observámos complacentes quando transferiram o nosso tecido de produção para o centro europeu em troca de uns temporários subsídios e agora encolhemo-nos com medo das palavras grandes que nos atiram enquanto saqueiam o que nos sobra de funcionante. O que era do interesse de todos está a transformar-se na nova forma de enriquecimento de alguns. E porque há uma diferença entre roubarem a riqueza dos nossos filhos ou sonegarem o seu acesso ao melhor tratamento médico, interessa antes de tudo defender aquilo a que um dia chamámos, orgulhosamente, Sistema Nacional de Saúde.
Arnaut continua ingloriamente a gritar contra a horda de comentadores que, entre as 8 e as 10, povoam os paíneis das várias televisões. É importante que se discuta tecnicamente o que é o SNS, para que serve e qual a sua qualidade médica - se podem irromper na televisão e mudar o vocabulário social com palavreado económico, que se use esta urgência técnica para discutir também tecnicamente a saúde. Mas é importante que se saiba também que ele funciona bem e é bem visto pelos seus utentes. Quando os dados de hospitais públicos e de parcerias público-privadas saírem, teremos matéria mais do que suficiente para invadir a Sic Notícias.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A Autobiografia de Nicolae Ceausescu



Uma autobiografia que é uma biografia, um filme construído quase exclusivamente pela selecção de cenas da vida pública e privada de Ceausescu, sem narração para além daquela que a montagem e sequência propõe, um documentário que é um não-documento: é, enfim, uma peça de ficção que, num arco de ascensão e queda tão querido dos historiadores que entulham as livrarias de metros de papel, mostra a ascensão de um ditador em plena Guerra Fria, a imposição e aceitação de uma ortodoxia, a adopção de rituais e métodos propagandísticos comuns aos regimes sino-soviéticos (mas também em boa medida, e como tão facilmente nos esquecemos disto, aos contemporâneos regimes ocidentais), a flexibilidade das grandes e das pequenas potências na tessitura dos equilíbrios políticos, económicos e militares (discursos de Nixon e de Charles de Gaulle na Roménia comunista, as visitas de Ceausescu aos países do Pacto de Varsóvia), a efabulação quanto ao progresso de uma nação por meio de uma retórica que Górgias tão bem manejaria, a transposição do doutrina marxista-leninista para um caleidoscópio de formas nacionais de comunismo real, mas, ainda e apesar do resto, as idiossincrasias de Ceausescu enquanto líder e as do regime comunista romeno enquanto subordinado de Ceausescu - o líder, não ele-próprio.

Quando nos aplicamos num desporto como amadores, raramente conseguimos evitar seguir certa ordem de instintos básicos. Saber isto talvez diminua a tarefa de compreender por que, num dos mais significativos excertos do filme, podemos ver Ceausescu, durante um jogo de vóleibol durante o qual ocupa a posição de passador, junto à rede, jamais esboçar qualquer tentativa de combinação com os seus companheiros, optando sempre por atacar a bola, devolvendo-a para o campo adversário. Certos espíritos, na voracidade de um jogo que apela ao instinto, recusam sempre colectivizar-se.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Ciência Nova

Dia 30 de Setembro, Lisboa, 9:00, Auditório 2, Fundação Calouste Gulbenkian: uma conferência para uma outra ciência económica, para uma outra política económica, para um pós-austeritarismo. Programa e inscrição.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Movimento na Estação da Baixa-Chiado



Há muito tempo que em Portugal se encontra firmemente enraízado um tipo de argumento provinciano, e simultaneamente evidência do nosso atraso, que consiste na comparação com o estrangeiro. Dizemos que é assim na França, em Inglaterra, nos E.U.A., na Alemanha, raramente com fins críticos, mas antes como invocação de uma autoridade: lá fora é assim, portanto cá devemos fazer o mesmo.

A mesma atitude saloia está presente na ambição apenas aparentemente inversa: a ânsia da inovação. Também aqui a pressão nasce não da necessidade, que aguçaria o engenho, mas do sentimento de menoridade, que nos empurra para o pioneirismo, o mecanismo que gera o progresso no estrangeiro.

O acordo entre a Metro de Lisboa e a PT revela precisamente a realidade desse argumentário: eis uma "inovação", um projecto pioneiro, que torna de facto privada uma estação que é pública, que esfrangalha a relação com a toponímia da cidade, que diminui a Língua Portuguesa, que, com os seus néons e símbolos, projecções de vídeo e hipotéticas demonstrações de produto, descoroaça uma arquitectura superior, que, enfim, abre o caminho a todo o tipo de capitulação futuro do público perante o privado.

Depois desta decisão, está criado o precedente que não deixará qualquer espaço ou instituição públicas a salvo de uma futura intervenção da mesma natureza. Amanhã outra estação, depois uma avenida, a seu tempo uma câmara, uma assembleia, a própria República.

Que movimento de maior amplitude se pode entrever? O de uma organização económica que, pelos suas premissas e resultados e também pela sua retórica, tem transformado os Estados no regulador dos anseios liberais (europeus) e no moralizador dos anseios conservadores, através de orçamentos eternamente deficitários, suborçamentação intencional e ruinosas concessões ao sector privado; o de um modelo económico que permite estabelecer um subtil processo de transferência de recursos públicos para os privados, não para uma distribuição plenamente social-democrata, mas para uma concentrada nos grandes grupos económicos. É uma estrutura de âmbito mais vasto que a do pensamento económico que a gerou: é uma vontade que, por meio de teoria económica, tem como fim o colapso do poder político e a ligação do indivíduo a uma estrutura ideal e absoluta.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

A eterna ignorância

Não sei se me espanta mais a ignorância, se a intolerância. Talvez o facto de ainda causa espanto, vindo de onde vem. Não vem mal ao mundo que a Igreja se mostre intolerante ou descabida. A qualquer um com um mínimo de consciência histórica, o facto só pode parecer repetido. É a ignorância que já não se aceita. Que não aceitem a homossexualidade ou sobre ela se mostrem bárbaros, é decisão que a cada um compete tomar. Que insistam em falar dela como doença - desta vez com várias gravidades, quem sabe prognósticos - é estar várias décadas atrasado. Não há como explicar a esta gente que está errada. Quem não percebeu à primeira, não vai saber ler agora.

Lá por fora

Krugman a ler a Europa.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A boa politica e a má politica

Serve o presente para expor que, numa altura em que se corta cegamente, nem toda a cegueira vem a propósito. Neste caso, a notícia de que o estado vai deixar de comparticipar três vacinas. Não é o simples facto de se cortar na despesa - tomamos todos hoje por ponto assente que o mal é necessário, à conta da repetição diária do facto. É a escolha de onde se cortar. A escolha da vacina contra o HPV é uma escolha inteligente. Primeiro, a vacina tem poucos estudos a longo prazo - o que faz com que não se saiba quanto tempo dura a protecção conferida, ou até se exige reforços de vacinação. Segundo, é uma vacina extremamente cara - não se trata aqui de saber se as mulheres a devem tomar, que devem, mas saber se é custo-eficaz, um dos requisitos para fazer parte de um plano nacional de vacinação. Terceiro, não só a vacina não abrange todas as estirpes de virus como os estudos epidemiológicos que levaram à construção da vacina não são portugueses - que é como quem diz que a vacina não é dirigida necessariamente contra as estirpes mais comuns em Portugal. Não se trata de não defender a vacina - que a defendo - nem de afirmar que não deve estar no PNV mas apenas de perceber que a sua exclusão seja uma medida perceptível no contexto em causa. O mesmo, até prova médica em contrário, é impossível sustentar sobre a vacinação para a Hepatite B. Ou sobre os cortes infligidos à transplantação - uma medida que, para além de medicamente aberrante, encarecerá ainda mais o serviço do estado, assim se façam os estudos sobre os custos da diálise mantida nos doentes não transplantados. Sabe qualquer pessoa que utilize uma tesoura: o acto de cortar não é em si mau, só convém não o fazer de olhos fechados. Às vezes corta-se um dedo.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A saúde custo-eficaz II

Ou o que não fazer, numa visão com tanto de troikista como de jornalística, ainda assim  aparentemente económica. Que não haja enganos: não é possível manter um serviço de saúde com qualidade para o utente com tamanho corte numa das suas áreas mais centrais. Este não é o "estado-gordo". Este é o estado social mais básico a ser desmantelado. Ao serviço de alguns, em prejuízo de todos.

A saúde custo-eficaz

Uma visão técnica, nem troikista nem jornalística, mas ainda assim económica - sim, é possível. No New England Journal of Medicine.